“Joana Cipriano viveu no Concelho de Lagoa, na Freguesia de Porches. E foi assassinada, conforme foi provado em Tribunal. E Madeleine McCann? Quem garante a sua morte ou o seu rapto? Sousa Tavares? Se tem certezas absolutas que as revele. Caso contrário, que se cale e deixe correr o curso natural das coisas! Mais tarde ou mais cedo se saberá o que aconteceu. E a verdade virá, tenho essa convicção, de Inglaterra… onde, também está a verdade sobre o caso Freeport! Verdades de que já ninguém tem dúvidas.”
Por: Arthur Ligne
O lançamento do programa “Sinais de Fogo” de Miguel Sousa Tavares na SIC, de tão badalado na TV e na Rádio, levou muito boa gente a optar pelo seu visionamento, dada a reconhecida truculência do jornalista, porque todos nós gostamos de pessoas e de jornalistas desassombrados, inteligentes, corajosos, independentes, capazes de dizer meia dúzia de verdades. Era essa a ideia que sempre tivemos do jornalista e escritor Sousa Tavares. Aliás, revejo-me um pouco, apenas um pouco, no jornalismo do Miguel que, segundo li há dias, tem 30 anos de carreira. Eu apenas tenho 54!
Não deixou de me surpreender, contudo, ter escolhido para sua primeira vítima o PM José Sócrates! Vítima? E fê-lo de maneira muito distante daquilo que se lhe conhece. Não foi aguerrido, nem combativo. Foi demasiadamente pacífico, deixou que Sócrates passasse a sua lenga-lenga sem eira-nem-beira, de tão estafada e nada convincente. Ninguém acredita, nem ele próprio, naquilo que diz. Não é um político fiável.
Para mim, que tenho “fado” a mais na profissão, o jornalista fez um favor ao político. E agora, segundo correu na imprensa, sabe-se porquê: são amigos! Não era aquilo que as pessoas esperavam. Esperavam, sem dúvida, que o jornalista “espremesse” o político e cidadão José Sócrates fazendo-lhe as perguntas que dez milhões de portugueses gostariam de fazer: os casos “Freeport”, “Face Oculta” a sua licenciatura em engenharia e tantas outras dúvidas que pairam na sociedade civil e política.
O jornalista, que tem capacidade para tanto e muito mais, deixou-se ir na onda. Foi enganado pelo PM? Acho que não. Foi submisso. Essa submissão levou-o a dizer, várias vezes, que a liberdade de imprensa em Portugal não está em risco. Pudera!
Seja como for, tenho para mim que Sócrates está ferido de morte política e que não acabará o seu mandato! Alguém (ou ele mesmo) se encarregará de o derrubar do poder quase totalitário que criou numa regime que é tudo menos socialista, como sistema de reformas sociais que visam especialmente uma nova distribuição das riquezas… mas a realidade é bem diferente porquanto os ricos estão cada vez mais ricos, os pobres cada vez mais pobres e a classe média está a desaparecer, o que não é bom augúrio numa sociedade cada vez mais dependente dos mais diversos subsídios e benefícios fiscais e outros.
Logo, Miguel Sousa Tavares poderia ter ido fundo nas questões a apresentar ao ainda PM de Portugal.
Para o segundo programa “Sinais de Fogo”, foi anunciada a presença do ex-Inspector da PJ Gonçalo Amaral, o polícia de investigação que liderou os casos de Joana Cipriano e Madeleine McCann!
E quando todos pensávamos que Miguel pretenderia um pouco mais sobre a investigação e os seus contornos políticos, quanto ao seu julgamento e ao caso do desaparecimento de Madeleine McCann - e, muito provavelmente quanto ao hipotético envolvimento político bilingue no mesmo - o jornalista assumiu a dramática e severa condição de juiz - um mau juiz, deve ser dito - e “aplicou” a pena máxima do silêncio ao ex-inspector da PJ, fazendo perguntas com respostas impossíveis e dando opiniões pessoais às quais Gonçalo Amaral não podia responder, por imposição do Tribunal. Foi uma cobardia e um esgar de pouca (ou muita) inteligência, conforme se queira apreciar a premeditada actuação do jornalista...
Mais: o jornalista introduziu, também, o caso da morte da Joana Cipriano e foi mais longe ao afirmar que a mãe confessou o crime à custa de muita pancadaria! Nós, que andamos nisto há muitos anos, sabemos como funcionam as defesas e as acusações em Tribunal. E cada vez será pior, para mal dos Tribunais e da justiça, que se quer justa e independente.
Miguel Sousa Tavares não foi independente! Longe disso. Especialmente quando levantou suspeições e não deu oportunidade ao entrevistado de responder a qualquer delas.
Segui, como jornalista (e no terreno) ambos os casos. Escrevi sobre ambos. Com ponderação, já que não nos cabe julgar, mas noticiar, opinar com independência a partir de factos obtidos através de investigação jornalística, coisa que Miguel não terá feito, presumo. Mas que muitos outros jornalistas fizeram. Tomar posição, sim, a partir de factos comprovados, quando temos certezas absolutas. Joana Cipriano viveu no Concelho de Lagoa, na Freguesia de Porches. E foi assassinada, conforme foi provado em Tribunal.
E Madeleine McCann? Quem garante a sua morte ou o seu rapto? Sousa Tavares? Se tem certezas absolutas que as revele. Caso contrário, que se cale e deixe correr o curso natural das coisas! Mais tarde ou mais cedo se saberá o que aconteceu. E a verdade virá, tenho essa convicção, de Inglaterra… onde, também está a verdade sobre o caso Freeport! Verdades de que já ninguém tem dúvidas.
Apesar de o Tribunal ter determinado que o livro sobre Madeleine McCann não pode ser vendido… serão muitos os milhares de portugueses que o possuem. Eu também. E ainda bem que assim é.
Resumindo, direi que Miguel Sousa Tavares crucificou, desnecessária mas ostensivamente, o ex-Inspector Gonçalo Amaral, fazendo-o vilão e, com suavidade preocupante, retirou Sócrates da cruz das acusações graves que sobre ele pendem.
Mais do que dois pesos e duas medidas, o que é pena num jornalista afinal tão vulgar como qualquer outro!
em Editorial da Gazeta da Lagoa - semana de 8 a 14 de Março 2010 [edição em papel]


